OS VERDES ANOS

Portugal | 1963 | Fic. | 35mm | Cor | 91’

Realização: Paulo Rocha
Produção: António da Cunha Teles
Argumento: Nuno Bragança
Fotografia: Luc Mirot
Montagem: Margharethe Mangs
Música: Carlos Paredes
Som: Heliodoro Pires
Actores: Ruy Furtado, Isabel Ruth, Rui Gomes, Paulo Renato, Cândida Dyne, Harry Weeland

Sinopse

Júlio, de dezanove anos, vem da província para Lisboa, tentar a sorte como sapateiro. No dia da chegada, um incidente leva-o a conhecer Ilda, jovem da mesma idade, empregada doméstica em casa próxima da oficina onde Júlio trabalha.

Júlio sente-se num ambiente estranho e hostil, desenrolando-se uma série de peripécias que lhe despertam a desconfiança em relação a Ilda, que decide romper o namoro. Impulsivo, Júlio acaba por matá-la.

 

PAULO ROCHA

Para toda uma geração - de cineastas portugueses mas não só -, os primeiros acordes da magistral composição de Carlos Paredes Os Verdes Anos trazem à memória um certo filme com o mesmo título, realizado em 1963 por um então quase desconhecido cineasta formado na esteira do movimento cineclubista, de seu nome Paulo Rocha. Com produção de António da Cunha Teles, a primeira longa-metragem de Paulo Rocha marca para muitos o início do chamado "cinema novo". A partir duma curta notícia de jornal (um jovem da província matara uma criada em Lisboa), Paulo Rocha e o escritor Nuno de Bragança construíram um argumento aparentemente simples sobre uma juventude algo inquieta e rebelde, sem saídas numa cidade, Lisboa, com tanto de fascinante como de sufocante. O filme constituiu também o ponto de partida para apresentação de filmes de novos realizadores em festivais internacionais de cinema (Os Verdes Anos obtém mesmo distinções em Locarno, Acapulco e Valladolid).

Em 1966, novamente com produção de António da Cunha Teles, Paulo Rocha realiza Mudar de Vida, um dos raros filmes a abordar de forma realista (embora não muito profunda, já que todos os filmes eram visionados pela Comissão de Censura) a problemática da Guerra Colonial. Rodado no Furadouro, nas proximidades de Ovar, o filme centra-se nas dicotomias terra e mar, tradição e progresso.

Em 1971, sob produção do Centro Português de Cinema (CPC), realiza o documentário Pousada das Chagas, tendo como cenário o Museu de óbidos. Dois anos depois torna-se presidente do CPC, cargo que ocupará até 1975, data em que assume as funções de adido cultural da Embaixada de Portugal no Japão, que desempenhará até 1983. Deixa-se fascinar pelo cinema nipónico e também pela figura e obra de Wenceslau de Moraes, escritor português que em finais do séc. XIX partiu para o Oriente, vindo a morrer no Japão. Moraes é o tema de A Ilha dos Amores (1982) e A Ilha de Moraes (1983), trabalhos que se complementam e dão uma visão bastante profunda da personalidade do escritor.

Parte do que pode definir-se como o seu "ciclo do Japão" é ainda a co-produção luso-francesa O Desejado — As Montanhas da Lua (1917), a adaptação à actualidade portuguesa dum clássico da literatura japonesa do séc. X.

Em 1988 realiza a média-metragem Máscara de Aço Contra Abismo Azul para a Rádio Televisão Portuguesa. Partindo dos títulos de dois quadros de Amadeo de Souza Cardoso ("Máscara de Aço" e "Abismo Azul"), o filme centra-se numa fase da obra do pintor mais voltada para o espectáculo, optando o realizador, através duma montagem de quadros, fotografias e recortes de jornal, por uma abordagem estética próxima da do teatro de revista.

Em 1992 Paulo Rocha presta homenagem a Manoel de Oliveira em Oliveira, o Arquitecto, uma viagem por lugares a que o veterano realizador esteve ligado, acompanhada de testemunhos de familiares e colaboradores. O filme integrou uma série de televisão francesa denominada de "Cinema do Nosso Tempo".

Seguem-se mais duas obras de temática nipónica: O Senhor Wenceslau Brás em Tokushima (1993), uma peça de teatro filmada, e Imamura, o Livre Pensador (1995).

Em 1998 regista em vídeo um espectáculo teatral do grupo Maizum, Camões — Tanta Guerra, Tanto Engano, regressando à ficção no mesmo ano com uma co-produção luso-franco-brasileira, O Rio do Ouro, uma história algo mística ambientada no Vale do Douro nos anos 50 com que o realizador pretendeu homenagear o cineasta japonês Kenji Mizoguchi.

Data do ano 2000 o que será talvez o mais desconcertante filme da sua carreira, uma farsa política (e musical) localizada numa Lisboa do futuro, protagonizada por vários "travestis": A Raiz do Coração.

As Sereias e Vanitas, de 2001 e 2004, respectivamente, reafirmaram a vitalidade e a juventude de Paulo Rocha, que continua a filmar com o coração e a razão de quem sabe fazer magia e não teme os desafios da vida.

Paulo Rocha é o realizador homenageado da 5ª edição do Festival de Curtas das Ilhas – mais do que merecida homenagem! -, e os acordes e as imagens de Os Verdes Anos poder-se-ão ouvir e ver de novo, no Teatro Faialense, com o próprio ali ao lado.


  » Com apoio do Instituto de Camões


FILMOGRAFIA:

VANITAS
Portugal | 2004

AS SEREIAS
Portugal | 2001

A RAIZ DO CORAÇÃO
Portugal | 2000

CAMÕES - TANTA GUERRA, TANTO ENGANO
Portugal | 1998

O RIO DO OURO
Portugal | 1998

OLIVEIRA - L’ARCHITECTE
Portugal | 1993

PORTUGARU SAN - O SR. PORTUGAL EM TOKSHIMA
Portugal | 1993

O DESEJADO
Portugal | 1987

A ILHA DE MORAES
Portugal | 1984

A ILHA DOS AMORES
Portugal | 1982

A POUSADA DAS CHAGAS
Portugal | 1972

SEVER DO VOUGA... UMA EXPERIÊNCIA
Portugal | 1971

MUDAR DE VIDA
Portugal | 1966

OS VERDES ANOS
Portugal | 1963

““Os Verdes Anos” é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como uma revelação.
Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do princípio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...).
Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respiração temática. Acontecia também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à realidade plástica dos planos, aos tempos.
Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos não ganharam cãs, sabemo-lo... O que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto.”


Jorge Leitão Ramos, in Dicionário do Cinema Português 1962-1988, ed. Caminho, Lisboa, 1989